Contando um Mito (…e que Platão me perdoe …)

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Gaia, a terrível deusa da Terra, era bipolar, controladora e confusa. Nada de estranho nisso, afinal é filha de Caos ! Gerou inúmeros filhos. Todos poderosos e terríveis. Como mãe solteira e independente, gerou um filho chamado Urano, que se tornou, por incesto divino, seu marido. Daí em diante foi uma peleja só! Com os pais temendo os próprios filhos,devorando-os ou prendendo-os. Gaia era como a primeira socialista utópica, que mesmo gerando filhos terríveis, se revoltava quando esses resolviam aniquilar seus rebentos, possíveis concorrentes. É como se não percebesse a natureza de suas próprias criações. Nesse imenso bochincho cósmico Atena, a deusa da sabedoria, ainda não havia brotado da cabeça de Zeus, e tudo seguia a linhagem do pai primeiro : o Caos! Esta poderosa força, a Genética,seguia operando seus mandamentos impiedosamente. É, parece que o gregos antigos esquecerem-se de colocar essa deusa em seu panteão … Gaia, a confusa e controladora progenitora, prosseguiu incentivando rebelião após rebelião de filhos contra seus país, até que Zeus, o mais poderoso e astuto, venceu a todos. Impondo-se como soberano e acabando com o espírito revolucionário reinante. Então, até mesmo Gaia, a grande parturiente de revoltas e filhos, se aquietou, seguindo-se um período de estabilidade em que Zeus reinava sozinho.

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Eras se passaram, e mesmo Zeus foi deposto do culto dos homens, e um Outro, não só mais poderoso e sábio , mas também mais bondoso e justo tomou seu lugar. Esse Outro abarcava não só a Terra e o Céu, mas também o Tempo e o Caos. Era, enfim, o fundamento de todos os outros. Os homens começaram a cultuá-lo em número cada vez maior, e onde este culto predominava a ordem e a paz se instalavam com uma força maior. No entanto, esse movimento crescente deve ter feito um barulho medonho que despertou Gaia de seu sono profundo a que se submetera por séculos a fio. Todo aquele espírito de ordenação e serena harmonia que estava se formando mexeu com sua íntima natureza, e um sentimento de ciúme tomou seu coração. Resolveu então retomar seu poder e fazer com que os homens voltassem a cultuá-la,mas a situação era muito diversa de quando ela resolveu adormecer eras atrás. Teria então que traçar um plano para enfrentar este novo Deus que era infinitamente superior aos de seu tempo. A batalha não poderia ser frontal. Começou, então, a plantar na imaginação dos homens uma ilusória saudade dos tempos antigos, como se naquele período tudo fosse melhor. Como se a paz e a harmonia que buscavam agora, tivesse existido enquanto ela reinava, e a espécie humana saltitava feliz de mãos dadas com ela e suas fofas criaturas. Este encanto inebriou alguns homens e mulheres que voltaram a cultuar seres que eram filhos da Mãe Natureza – as fofas criaturas – já que ela própria não queria aparecer. Como efeito disso, certos homens foram se esquecendo do Deus que a tudo transcende e começaram a cultuar esses filhos de Gaia, enfim, da matéria que a Terra simboliza e produz.

Baseados neste novo culto, não se pode negar, a humanidade alcançou grandes feitos, trazendo confortos e facilidades como nunca antes em sua história. O  problema é que a grande deusa esquecida, a Genética, fez com que os caracteres ancestrais não se perdessem no tempo, e Gaia, que é filha de Caos, trouxe junto consigo a herança do pai, e e claro legou a seus filhos. Assim, os homens, pelo culto do material, absorvendo esse legado divino, puseram-se a comportar-se como os deuses primitivos, engolindo-se uns aos outros e se dizendo inimigos mortais de quem são, na verdade, irmãos de mesma linhagem.

Percebendo que a feiura de Caos – sua maldita herança, começava emergir da aparente harmonia – poderia denunciar sua presença, a deusa, antes gorducha e desengonçada, travestiu-se de moça bonita, e de face amistosa.

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Então, com seu longo vestido cobriu seus mais feiosos rebentos e voltou à carga outra vez. Agora orientando seus devotos a abandonarem o culto antigo, das técnicas, da manipulação das matérias. Era chegada nova era, em que o palpável e denso daria lugar ao sutil e evanescente. Tomaria ela agora, certos ares de Cronos, e o novo culto seria do passageiro e do leve, do sensorial e sentimental. Seus novos filhinhos seriam de aparência mui bela, e que tocassem os corações e as almas, de forma a tudo tornar  de um frescor juvenil.  A visão de harmonia, que antes mirava  passado, agora teria o futuro como alvo. Este modo novo funcionou muito bem e expandiu-se depressa. Mais confiante na vitória premente, permitiu que, finalmente, a cultuassem, sem rodeios. O repentino sucesso trouxe também nova idéia : já que estou forte agora, por que não tomar o que é meu por direito e voltar a governar o mundo de novo?

Então recuperou e uniu o antigo  e o novo, inspirando na alma de seus seguidores devotos o ardente desejo de criar uma iluminada elite a governar todos os povos. Pois pensou ela : se a este mundo governam os meus, na verdade, que governa sou eu!

Seu plano tem dado certo, e ela segue feliz. Não é, pois,  temível essa  deusa de face amigável  de moça bonita. Mas, a deusa esquecida, que mantém a corrente inquebrável, dos primórdios até este dia,  mantém vivos, por de baixo da saia de Gaia, os genes do Caos!

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A Função Social da Legislação Ambiental

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Nos EUA a EPA, uma espécie de FEPAM de lá, derramou milhões de galões de um reservatório de uma mina de ouro abandonada que continha produtos tóxicos e metais pesados num rio que passa por cidades de Utah, Novo México e Colorado (aqui). Segundo a imprensa local a resposta da EPA foi algo parecido com : Epa ! Foi mal … Já no Wyoming, quando se trata de uma propriedade privada (aqui), a agência estatal tem uma resposta muito mais dura para um caso muito menos grave. Na verdade, com nenhuma gravidade. Um proprietário de 8 acres construiu um açude sem pedir licença à tal EPA – que, segundo a imprensa local, nem é atribuição dela! O açude, que serve de bebedouro para a criação do proprietário, ainda serve de habitat da fauna local e mesmo como filtro de possíveis poluentes e sedimentos. Mas por não ter, supostamente, seguido a lei e se submetido ao órgão estatal o proprietário foi multado em 40.000,00 dólares diários e já está próximo de 20 milhões !
Por essas e por outras eu tenho sérias desconfianças de que as leis ambientais são feitas mais para tolher o direito à propriedade privada do que proteger o ambiente, como se alega normalmente.

Portanto esta é a verdadeira “função social” da legislação ambiental  : “desconstruir” o conceito de propriedade privada e transformar tudo em uma imensa estatal !

APP’s e Evidências

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Por que, hoje em dia, a realidade é tão desprezada, e a teoria tão valorizada? Por que o mundo que se exibe em nossa frente é preterido pelos fantasmas que habitam nossa mente? Por que as teorias e as imagens esquemáticas tem a densidade do chumbo, e as evidências – o que nos salta aos olhos – a leveza de uma pluma? Não sei o porquê, mas sei que eu também já fui vítima dessa inexplicável inversão que infecta a mentalidade moderna. Dei-me conta disso há algum tempo, e espero estar conseguindo livrar-me desse mau hábito.

Vamos a um exemplo : por anos a fio, ouvi na escola e até mesmo na faculdade as máximas de que “as matas ciliares têm a função de proteger a margem dos rios da erosão”, que “é preciso preservá-las para que não haja desbarrancamentos, e se evite o assoreamento dos rios”. Ora, isso ficou em minha cabeça por anos a fio e era uma verdade inconteste, até que certas realidades bateram-me na cara de forma a despertar minha curiosidade. A primeira delas ocorreu quando eu media vazões após uma chuvarada em um rio que descia da serra de Santa Maria, chamado Arroio Grande. Como não tinha os equipamentos apropriados, só me restava o modo mais rudimentar, usar de um flutuador e de dois ajudantes nas margens. Atirei-me nas águas que desciam velozes em um pequeno caiaque para poder jogar e recuperar o flutuador e assim repetir as medidas . Ocorre que durante esse trabalho, senti várias vezes, no caiaque, o impacto de troncos e pedaços de pau que vinham flutuando logo abaixo da linha d’água. Não morri, por pura sorte! Após o término do trabalho, ao sairmos do local, tivemos que esperar um bom tempo, pois os moradores do local estavam empenhados em tirar uma enorme árvore, trazida pela correnteza, que trancara na ponte e ameaçava derrubá-la.

Aquilo ascendeu uma lâmpada – como nas estórias em quadrinhos – na minha cabeça. E me vieram as perguntas : como é que as árvores mantém as barrancas dos rios se elas mesmas estão sendo arrancadas e transportadas rio abaixo ? Como é que algo que, diziam, segurava a terra e evitava que esta fosse levada embora, era ela mesma carregada pelas águas ? Neste caso, o instrumento da estabilidade era, ele mesmo, instável ?

Essas perguntas ficaram martelando em minha mente por sei lá quanto tempo, e dessas surgiam outras: então a tal mata ciliar não serve para nada? Não desempenha  função alguma? No entanto, não disse nada a ninguém, e os pensamentos logo se reacomodaram e aquietaram de novo. Permaneci agarrado à crença anterior, em parte por inércia, em parte por medo de parecer ridículo perante meus pares . Afinal, essa era uma idéia “herética”, e, sendo o contrário do senso comum, certamente seria censurado ou acusado de inimigo da natureza, apologista do desmatamento, ou coisa do tipo.

Enfim, essa foi a primeira de uma série de questionamentos que me fizeram refletir e chegar a determinadas conclusões mais tarde, e, que eu me lembre, a primeira vez que a evidência retomou seu lugar devido. O chumbo voltou a pesar como chumbo e a pluma como pluma, mas ainda era um segredo entre mim e meus miolos …